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A inteligência artificial promete descentralizar capacidades, mas sua infraestrutura pode concentrar o direito de inovar. Quem pode apostar no futuro?
Essa talvez seja a pergunta mais importante por trás dabehind (the) inteligência artificial. Não apenas quem poderá usá-la, mas quem poderá experimentar com ela, errar com ela, construir sobre ela e capturar seus ganhos antes que o restante da sociedade perceba seu valor. A especulação produtiva vende uma hipótese. A fraude vende uma certeza falsa.
Essa distinção importa porque a palavra "especulação" costuma ser usada comois usually used as acusação moral, como se toda aposta sobre o futuro fosse ganância improdutiva. Mas especular, em seu sentido mais interessante, é tentar precificarto price / put a value on uma possibilidade antes que ela se torne evidente. É assumir risco diante da incertezain the face of uncertainty.
O progresso raramente nasce com aparênciaappearance respeitável. FerroviasRailroads e internet misturaram euforia, capital mal alocado e descobertadiscovery real antes de se tornarem infraestrutura. A lição não é que toda bolhabubble seja boa. A lição é que, muitas vezes, o futuro é financiado antes de parecer racional.
É aqui quethis is where o liberalismo econômico oferece sua melhor leiturareading, interpretation. Não como adoração do lucro, mas como uma hipótese sobre conhecimento: em uma economia complexa, ninguém sabe antecipadamente onde estará o valor. Ele é descoberto por agentes diferentes, errando e acertando com o próprio capital.
Mercados não acertamget it right sempre. Mas permitem que muitos testem hipóteses sem depender de uma autorização central para imaginar o amanhã.
A inteligência artificial radicaliza essa discussão porque muda o objeto da especulação. No passado, especulava-se sobre terra, fábricas, imóveis, petróleo, ações ou infraestrutura física. Hoje, especula-se também sobre modelos, dados, chips, nuvemcloud (computing) e capacidade de inferência.
Nesse contexto, uso "tokenização" não no sentido de ativos financeiros em blockchain, mas como metáfora econômica apoiada em um fato técnico: modelos de linguagem processam texto em tokens, e muitas APIs cobram por esse consumo. O token não contém inteligência. Mas mede o consumo de uma infraestrutura que promete entregá-la sob demanda. Essa é a novidade. Não estamos precificando conhecimento pela primeira vez; professores, consultores, advogados e programadores sempre venderam conhecimento. A diferença é que parte da capacidade cognitiva agora pode ser consumida de forma granular, automatizada e escalável.
O usuário que paga tokens para resumir um documento não está necessariamente especulando; está usando uma ferramenta. Quem especulathose who speculate são investidores, empresas, profissionais e empreendedores que apostambet que esse consumo de inferência seráwill be uma das bases da próxima economia.
A promessa liberal da IA é reduzir barreiras de entradabarriers to entry: permitir que agentes pequenos acessem capacidades antes restritas a grandes organizações. Mas essa promessa carrega uma contradiçãocarries a contradiction imediata. Para descentralizar capacidade, a IA depende de uma infraestrutura altamente concentrada.
O Stanford AI Index 2026 aponta que os Estados Unidos hospedam 5.427 data centers, mais de dez vezes o número de qualquer outro país, e que uma única empresa, a TSMC, fabrica quase todos os chips líderes de IA. A economia dos tokens pode parecer imaterial na tela, mas nasce de semicondutores, energia, nuvem, data centers e cadeias produtivas raras. A escassezscarcity começa antes do token: começa no chip capaz de produzi-lo em escala.
As restrições de exportação dos Estados Unidos sobre chips avançados tornam isso ainda mais explícitomake this even more explicit. Em 2023, o Bureau of Industry and Security atualizou controles sobre computação avançada, supercomputação e equipamentos de semicondutores; em 2026, o próprio BIS passou a analisar caso a casocase by case exportações à China de semicondutores como Nvidia H200 e AMD MI325X. Ou seja: acesso à IA de pontacutting-edge já não é apenas decisão empresarial. É questão geopolítica.
Isso cria uma tensão que o liberalismo precisa enfrentar com honestidadeface honestly. Se o futuro deve ser descoberto por experimentação descentralizada, o que acontece quando poucos países e empresas controlam o combustívelfuel dessa experimentação? Há ainda uma objeção incômoda: talvez essa concentração não seja um desvio do mercadomarket deviation/distortion, mas parte da própria estrutura do setor. A indústria de semicondutores não nasceu de um mercado puro e espontâneo. Ela foi moldada por política industrial, compras públicas, subsídios, proteção estratégica e décadas de coordenação geopolítica. Fingirto pretend, to feign que tudo isso é apenas fruto de concorrência livre seria intelectualmente desonesto. Mas essa objeção não destrói o argumento liberal. Ela o obriga ait forces it to amadurecerto mature. O liberalismo econômico não precisa negar que o Estado teve papel na formação de infraestruturas críticas. Precisa insistir que essas infraestruturas não se transformem em feudos permanentespermanent fiefdoms.
Também seria ingênuonaïve dizer que toda concentração é ilegítima. Em setores de capital extremo, alguma escala pode ser necessária. Em tecnologias sensíveis, alguma restrição pode ser defensáveldefensible por segurança. Nem toda abertura imediata é virtude; nem todo controle é abuso.
O problema começa quando eficiência e segurança deixam de ser limites prudenciais e passam a funcionar como justificativas permanentes para bloquear concorrência.
A pergunta, portanto, não é se houve política industrial. Houve. A pergunta é se ela ampliará a capacidade de novos agentes competirem ou se congelará privilégios em nome da soberania, da segurança ou da inovação. Essa diferença é decisiva.
Política pública que expande capacidade produtiva, reduz gargalosbottlenecks e aumenta o número de competidores pode fortalecer a liberdade econômica. Política pública que protege campeões nacionais, fecha mercados e subsidia incumbentes apenas troca concorrência por renda políticapolitical rent.
O mesmo vale para as empresas. Uma coisa é uma companhia lucrar porque inovou, assumiu risco e entregou valor. Outra é transformar infraestrutura em pedágio obrigatóriomandatory toll para que todos os outros possam inovar depois dela.
Por isso, um liberalismo sério não deve defender inovação de forma abstrata. Deve defender contestabilidadecontestability: a possibilidade real de novos entrantes desafiarem os antigos.
E aqui o problema vai além dos chips. Mesmo que houvesse mais concorrência em hardware, a concentração poderia reaparecer em dados proprietários, capital para treinamento, distribuição, contratos de nuvem, integração com sistemas operacionais e acesso ao usuário final. A economia da inteligência não terá um único gargalo. Terá vários.
É por isso que a especulação tecnológica só é socialmente útil quando mais gente pode participar dela.
Se apenas os grandes acessam as melhores ferramentas, apenas eles podem errar na fronteiraat the frontier. Se apenas os incumbentes conseguem pagar pelo aprendizado, o futuro deixa de ser descoberto por concorrência e passa a ser administrado por poucos.
E se o preço da inferência permanece alto demais, os tokens deixam de ser instrumentos de democratização e viram nova barreira de entradaa new barrier to entry.
O verdadeiro inimigo da inovação não é o fracasso. Fracasso faz parte da descoberta. O inimigo é um sistema em que apenas poucos podem fracassar com acesso às melhores ferramentas.
Defender especulação tecnológica, portanto, não é defender qualquer euforia de mercado. É defender a liberdade de testar hipóteses sobre o futuro. Sua utilidade social não está em enriquecer quem acerta, mas em financiar experimentos que uma sociedade excessivamente prudente talvez nunca começasse.
Mas liberdade para especular não é liberdade para enganar. Liberdade para inovar não é direito adquiridovested right a monopólio. Liberdade econômica não é submissão passivapassive submission a qualquer empresa ou Estado que se apresente como dono do futuroowner of the future.
Talvez o consumo mensurável de inferência (hoje frequentemente cobrado em tokens) seja uma das unidades centraiscentral units (of measurement) da próxima economia. Talvez o modelo comercial mude. Talvez o custo caia. Talvez modelos locais e abertos reduzam parte da concentração. A incerteza faz parte do ponto.
O que parece menos incerto é que a capacidade de produzir linguagem, código, análise e decisão assistida virou infraestrutura econômica.
E toda infraestrutura importante levanta a mesma pergunta política: ela multiplicará agentes ou consolidará donos? A pergunta não é se haverá especulação tecnológicathe question isn't whether there will be technological speculation. Haverá. A pergunta é se ela será aberta o bastante para financiar descobertas ou fechada o bastante para transformar o futuro em propriedade de poucos. Essa escolha não pertence ao futuro. Ela já começou.
Samuel Campovilla é estudante de Engenharia de Software pela PUC-Campinas, CEO e desenvolvedor da OpenPol, iniciativa de tecnologia cívica voltada à organização, tratamento e apresentação de dados públicos.